Relógios inteligentes ainda não medem glicose com precisão, alerta Anvisa

Relógios inteligentes que prometem medir a glicose sem furar a pele continuam à venda em marketplaces brasileiros, embora nenhum deles possua comprovação clínica ou autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A agência determinou a proibição de comercialização, importação, distribuição, propaganda e uso desses dispositivos após constatar que não existe evidência científica suficiente para atestar sua segurança e eficácia. Ainda assim, ofertas desses produtos, com valores que variam de R$ 78 a R$ 760, permanecem disponíveis na internet, mantendo consumidores em risco potencial.

Quem oferece e o que exatamente é anunciado

Os aparelhos divulgados como capazes de monitorar a glicemia seguem visualmente o padrão dos smartwatches tradicionais: caixa retangular ou circular, pulseira ajustável e tela sensível ao toque. As peças publicitárias afirmam que o relógio realiza leituras contínuas a cada 30 minutos, exibe gráficos coloridos que indicariam níveis elevados, normais ou baixos de açúcar no sangue e gera relatórios diários sobre a saúde do usuário.

Para sustentar essas promessas, os fabricantes mencionam a utilização de fotopletismografia (PPG), tecnologia amplamente empregada para detectar fluxo sanguíneo e batimentos cardíacos, mas sem comprovação robusta para quantificar glicose. Algumas propagandas chegam a mostrar telas de aplicativos sincronizados, repletas de números supostamente precisos, histórico completo de medições e alertas personalizados.

Quando e como a Anvisa interveio

A Anvisa iniciou a repressão a esse tipo de produto após identificar, em agosto de 2025, a venda de um modelo denominado GlicoWatch pela plataforma GWF Negócios Digitais Ltda. A decisão publicada no Diário Oficial da União registrou a proibição integral do dispositivo, aplicada tanto ao comércio nacional quanto à importação. O ato foi assinado pela Gerência-Geral de Inspeção e Fiscalização Sanitária, que ressaltou a inexistência de estudos clínicos validados e de registro sanitário para qualquer smartwatch com a função de medição de glicose.

A ação não ficou restrita aos relógios. Anéis inteligentes que alegavam realizar a mesma leitura não invasiva também foram banidos em setembro de 2025. A agência justificou que produtos sem registro não oferecem garantia de qualidade, colocam em risco pacientes que dependem de dados confiáveis e violam normas sanitárias vigentes.

Por que a medição sem punção é tão difícil

A aferição precisa da glicose exige contato direto com fluidos corporais que reflitam a concentração real de açúcar circulante. O método convencional coleta uma gota de sangue capilar ou utiliza sensores subcutâneos aprovados, que analisam líquido intersticial com correlação validada às taxas sanguíneas. Fora desse contexto, a glicose aparece em concentrações muito menores e suscetíveis a variações externas, tornando qualquer estimativa pouco confiável.

Nos smartwatches publicitados, o valor exibido não decorre de uma medição direta; ele resulta de algoritmos que combinam sinais ópticos, temperatura da pele, frequência cardíaca e outros parâmetros. Pequenas alterações nesses fatores já distorcem o resultado final. Diferenças de 20 ou 30 mg/dL, frequentes em estimativas desse tipo, podem levar a decisões perigosas: consumir açúcar sem necessidade ou administrar insulina em excesso, com risco de hipoglicemia grave ou hiperglicemia sustentada.

Efeitos de um resultado impreciso para quem tem diabetes

Pessoas com diabetes dependem de leituras confiáveis para ajustar doses de insulina, controlar a dieta e planejar atividade física. Ao confiar em números gerados sem validação científica, o usuário perde o principal instrumento de autocontrole. Além disso, a falsa sensação de segurança retarda a busca por métodos consagrados, como tiras reagentes ou sensores subcutâneos, elevando a probabilidade de complicações agudas e crônicas.

A inadequação desses aparelhos levou também a órgãos internacionais, como a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, a emitir alertas em fevereiro de 2024. Segundo o comunicado norte-americano, nenhum smartwatch ou anel inteligente livre de punção atingiu padrões de precisão aceitáveis para aprovação.

Estrategistas de marketing e as táticas de engano

Os anúncios direcionados ao público brasileiro utilizam selos de certificação inexistentes, referências a supostas homologações ou frases que sugerem fase final de testes regulatórios. Alguns vendedores publicam trechos de comentários de usuários, relatórios de especialistas fictícios e imagens de laboratórios para transmitir credibilidade. Em outros casos, os materiais promocionais colocam lado a lado funções reconhecidamente confiáveis, como contagem de passos e medição de frequência cardíaca, com a promessa de controle glicêmico, criando a impressão de equivalência técnica.

Outra tática observada é a variação de preço: o mesmo modelo aparece em ofertas a partir de R$ 78 e chega a R$ 760, estratégia que estimula diferentes perfis de consumidor. Valores mais altos se apresentam como sinônimo de maior qualidade; preços baixos atraem compradores que procuram soluções acessíveis. Ambos os públicos, contudo, recebem um dispositivo sem respaldo científico.

Papel dos profissionais de saúde e das sociedades médicas

A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e médicos de diversas especialidades desconselham o uso desses relógios e anéis. A entidade ressalta que três frentes de pesquisa — óptica, micro-ondas e eletroquímica — seguem em desenvolvimento para um futuro sensor não invasivo, mas nenhuma alcançou maturidade suficiente para uso clínico. Os estudos existentes revelam correlação baixa com a glicemia sanguínea, faixa estreita de operação e necessidade de calibrações frequentes.

Na ausência de dados robustos, a recomendação permanece clara: sensores subcutâneos registrados junto à Anvisa ou a gota de sangue capilar continuam sendo as únicas formas seguras de monitorar a glicose em casa.

Recursos de smartwatch que já têm utilidade comprovada

Embora ainda não sirvam para controle de diabetes, os relógios inteligentes apresentam métricas valiosas quando utilizados de forma correta:

• Frequência cardíaca: A medição óptica é madura e ajuda a analisar exercícios, estresse e padrões de sono, com boa confiabilidade em marcas consolidadas.
• Saturação de oxigênio (SpO2): Indicada apenas para acompanhamento de bem-estar em pessoas saudáveis e em repouso; não deve substituir oximetria hospitalar.
• Eletrocardiograma simplificado (ECG): Disponível em alguns modelos, detecta variações de ritmo como fibrilação atrial, mas não substitui exames médicos completos.
• Contagem de passos e gasto calórico estimado: Úteis para incentivar a prática de atividade física diária.
• Monitoramento do sono: Ajuda a identificar padrões de repouso, embora não realize diagnóstico de distúrbios.

Funções como medição de pressão arterial por métodos alternativos e análise de composição corporal via bioimpedância ainda carecem de padronização clínica. Podem ser consultadas para fins informativos, mas não devem fundamentar decisões terapêuticas.

Por que a fiscalização se mantém necessária

A presença contínua dos relógios proibidos em plataformas de vendas digitais evidencia a dificuldade de controlar importações de baixo volume e a velocidade com que novos anúncios surgem. O formato de marketplace dilui responsabilidades entre vendedores independentes, facilitando que produtos sem registro retornem sob marcas diferentes ou com embalagens alteradas.

Nesse contexto, a atuação da Anvisa envolve monitoramento de denúncias, cruzamento de dados de importação e articulação com as próprias plataformas para remoção de anúncios. Contudo, o ciclo se repete à medida que outros fornecedores surgem. Até que exista tecnologia não invasiva aprovada, a recomendação oficial permanece: evitar totalmente aparelhos que prometem medir glicemia sem punção.

Como identificar um dispositivo regularizado

Consumidores que desejam verificar se um produto tem autorização de uso devem consultar o banco de dados de produtos para saúde disponível no portal da Anvisa. O registro contém número específico, nome do fabricante e finalidade do equipamento. A ausência de cadastro indica que o item não passou por avaliação regulatória e, portanto, não teve eficácia, segurança e qualidade atestadas.

No caso de sensores de glicose, o sistema lista apenas os tipos subcutâneos e os kits de teste capilar, confirmando que nenhum smartwatch ou anel consta como liberado.

Cenário futuro da tecnologia não invasiva

Empresas de diversas partes do mundo investem em soluções ópticas, radiofrequência e espectroscopia avançada para captar glicose pela superfície da pele. Os protótipos atuais, porém, ainda enfrentam barreiras de precisão. Para obter aprovação regulatória, um dispositivo precisará medir glicose diretamente, apresentar margem de erro comparável aos métodos tradicionais e comprovar resultados em estudos independentes e replicáveis.

A expectativa no setor é que o desenvolvimento continue, mas sem prazos definidos. Até lá, qualquer oferta de medição indolor e imediata deve ser vista com ceticismo, sobretudo por consumidores que dependem de dados exatos para conduzir terapias de alto impacto, como a insulinoterapia.

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