Escassez de memória impulsionada pela IA deve encarecer smartphones em 2026

Os preços de smartphones, tablets, smartwatches e outros produtos eletrônicos caminham para um patamar mais elevado em 2026, e o fator determinante não é uma nova geração de câmeras ou de telas: é a memória. Analistas de diversas consultorias apontam que a preferência dos fabricantes pelo fornecimento do componente para centros de dados dedicados à inteligência artificial (IA) provocará uma oferta reduzida ao mercado de consumo, pressionando custos de produção e, por consequência, valores finais para o usuário.

Quem está no centro da alta de preços

O impacto atinge diretamente os fabricantes de smartphones, mas se estende a praticamente todo dispositivo que dependa de memória, desde tablets até relógios inteligentes. Em números, a International Data Corporation (IDC) prevê que o preço médio global de um telefone celular alcance US$ 465 em 2026, ultrapassando recordes anteriores. Modelos Android de faixa de entrada, segundo a mesma consultoria, sofrerão o golpe mais intenso, pois operam com margens menores e possuem menor flexibilidade para absorver custos.

O que provoca a escassez do componente

A raiz do problema está nas mudanças de prioridade dentro da própria indústria de semicondutores. Grandes fornecedores, como Samsung e Micron, decidiram redirecionar parte da produção de memória para suprir data centers cada vez mais exigentes. Esses ambientes, voltados ao treinamento e à execução de algoritmos de IA, consomem uma quantidade significativa de módulos DRAM e NAND. Conforme relatado por analistas da Counterpoint Research, a situação é descrita como “brutal e generalizada”, indicando que não se limita a um fabricante ou a uma região geográfica.

Quando o aumento começa a ganhar força

A escalada de preços já se desenha para o final de 2025. Ao detalhar o cronograma, a Counterpoint projeta uma alta de 30 % no custo da memória no quarto trimestre de 2025, seguida por mais 20 % nos primeiros meses de 2026. Esses percentuais, somados, representam um salto acumulado de aproximadamente 56 % em pouco mais de seis meses. Como consequência, a TrendForce calcula que o gasto total de produção de um smartphone deverá ficar entre 8 % e 10 % mais caro ao longo de 2025. Esse acréscimo é repassado em parte ou totalmente ao consumidor, conforme a estratégia de cada marca.

Como a cadeia de suprimentos reage

Empresas interessadas em memórias para IA executam investimentos agressivos em infraestrutura. Meta, Microsoft e Google expandem data centers para dar suporte às suas plataformas de aprendizado de máquina, criando um efeito de deslocamento na oferta. A consultoria McKinsey projeta quase US$ 7 trilhões em aportes no setor até 2030, sinalizando que a demanda corporativa permanecerá robusta por um período prolongado. Em resposta, a Micron anunciou que deixará o segmento de memória para consumidores, concentrando-se no fornecimento corporativo, gesto que reduz ainda mais a quantidade de estoque disponível para produtos finais como smartphones.

Por que os data centers precisam de tanta memória

Sistemas de inteligência artificial requerem vastos volumes de dados para treinamento e inferência, processos que se beneficiam de grandes capacidades de DRAM para acesso rápido e de unidades NAND de alta densidade para armazenamento persistente. Cada nova arquitetura de linguagem natural, visão computacional ou recomendação de conteúdo, por exemplo, demanda clusters de servidores com especificações superiores às de gerações anteriores. A escala dessa migração tecnológica eleva tanto o consumo absoluto de chips de memória quanto a preferência dos fornecedores em atender contratos corporativos de maior valor agregado.

Quais fabricantes concentram a produção

Embora o mercado conte com diversos nomes, dois deles se destacam: Samsung e Micron. A primeira possui fábricas em várias regiões e, tradicionalmente, alterna sua linha entre módulos para PCs, dispositivos móveis e servidores. A segunda, após comunicar a saída do segmento de consumo, destinará praticamente toda a capacidade fabril à clientela de centros de dados. Essa concentração cria gargalos adicionais, pois reduz a competição em lotes voltados a smartphones e diminui a flexibilidade na negociação de preços para marcas de eletrônicos.

Efeito sobre as vendas globais de celulares

A IDC prevê que o mercado de smartphones encolherá 0,9 % em 2026. Parte da contração decorre da redução na oferta, mas a elevação de preços também desempenha papel decisivo. Consumidores podem adiar a troca de aparelho caso percebam menos benefícios em relação ao custo adicional. O ciclo de substituição tende a alongar-se, sobretudo em países onde a renda média restringe compras de alto desembolso imediato.

Análise dos custos de produção

Estimar o impacto de 8 % a 10 % sobre o preço de fábrica não significa, necessariamente, que o varejo subirá na mesma proporção. O repasse varia conforme a categoria do produto e a estratégia comercial. Entretanto, modelos de entrada possuem espaço limitado para absorver aumentos sem corroer margens. Assim, eles se tornam mais suscetíveis a reajustes visíveis. Já os topos de linha, apesar de custarem mais caro em valores absolutos, podem diluir parte do impacto em um preço final que já é elevado por outros componentes premium.

Consequências para tablets e vestíveis

Além de smartphones, dispositivos como tablets e smartwatches utilizam configurações de memória compatíveis com suas finalidades. Ainda que a capacidade instalada seja menor que a de um telefone, a competição pelo mesmo tipo de chip significa que qualquer escassez inflaciona seus custos. Dessa forma, escolas que planejem compras em larga escala de tablets, ou consumidores interessados em um wearable de entrada, podem enfrentar catálogos com valores acrescidos.

Perspectiva de alívio no fim de 2026

Analistas indicam que o desequilíbrio da cadeia de suprimentos tende a diminuir nos últimos meses de 2026. Essa expectativa se baseia na conclusão de novas linhas de produção, na entrada gradativa de mais investidores e na estabilização do ritmo de expansão dos data centers. À medida que a oferta se ajusta, os preços da memória podem deixar de subir em ritmo acelerado; não se afirma, porém, que retornem aos níveis observados antes da escalada provocada pela IA.

Aumento acumulado da memória: números-chave

30 % – Alta estimada para o quarto trimestre de 2025
20 % – Reajuste adicional esperado no início de 2026
8 % a 10 % – Elevação do custo total de produção de smartphones em 2025
US$ 465 – Preço médio global previsto para cada unidade comercializada em 2026
0,9 % – Queda projetada nas vendas mundiais de smartphones em 2026

Impacto diferenciado por segmento de preço

Ao analisar o recorte por faixa de valor, a IDC observa que dispositivos Android mais acessíveis são os mais vulneráveis. Nabila Popal, responsável pelo acompanhamento do setor na consultoria, menciona que tais modelos dependem de um equilíbrio delicado entre funcionalidades e custo final. A alta de memória, portanto, recepciona menos amortização nessa categoria, elevando o preço para consumidores sensíveis a pequenas variações no boleto.

Estratégias possíveis das marcas

Sem entrar em detalhes de cada fabricante, o setor trabalha com um cardápio limitado de soluções. Algumas empresas podem repensar especificações, reduzindo quantidade de memória em modelos de entrada para manter etiquetas competitivas. Outras considerarão repassar integralmente o aumento. Existem casos em que a margem deixará de financiar promoções e campanhas de marketing, comprometendo posicionamento no ponto de venda. Cada escolha interfere na percepção de valor do aparelho e, indiretamente, na rotação de estoque ao longo do ano.

Conclusão alinhada aos fatos

O panorama descrito pelos institutos de pesquisa revela um efeito cascata: a inteligência artificial impulsiona a construção de data centers, que absorvem a maior parte da produção mundial de memória, reduzindo a disponibilidade para produtos de consumo. Essa dinâmica pressiona custos de produção de smartphones, eleva preços médios e provoca ajuste negativo nas projeções de vendas globais. O cenário tende a permanecer até que novas unidades fabris entrem em operação e o ritmo de demanda por IA se acomode, expectativa fixada para o encerramento de 2026.

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