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O encerramento dos contratos de concessão da telefonia fixa, previsto para janeiro de 2026, põe fim à obrigação de manter espalhados pelas calçadas brasileiras os telefones públicos popularmente chamados de orelhões. Criados em 1971, eles resistiram por cinco décadas como solução de comunicação universal, mas serão retirados na esteira da consolidação da conectividade móvel e digital.
O cenário que antecede a retirada
Na década de 1970, possuir uma linha residencial era um privilégio caro, declarado até no Imposto de Renda. Para driblar o custo elevado e atender a população em grande escala, o poder público optou por levar o telefone às ruas. Assim, surgiu o orelhão, tratado desde o início como instrumento de inclusão, sobretudo para trabalhadores que dependiam dele para resolver emergências, avisar a família em viagens ou combinar compromissos.
Com a chegada de 2026, essa rede deixa de ser uma exigência regulatória. As concessionárias — que até agora precisavam instalar e conservar aparelhos mesmo em locais sem demanda — passam a gerenciar a infraestrutura sob regras mais flexíveis, voltadas majoritariamente para serviços móveis e banda larga.
Primeiros passos: como o orelhão virou política pública
Entre os anos 1970 e 1980, o governo federal buscou modernizar o país em diversas frentes. No campo das telecomunicações, a meta era ampliar o acesso à voz para além das residências abastadas. Antes dos telefones de rua, quem não possuía linha própria dependia de estabelecimentos comerciais ou da boa vontade de vizinhos para efetuar ligações.
Nesse contexto, o orelhão foi concebido como peça-chave de universalização. Ele transformou calçadas em pontos de encontro, gerou filas em datas comemorativas e funcionou como “telefone comunitário” em bairros populares. Ao oferecer chamadas pelo valor de uma ficha metálica, rompeu a barreira financeira que impedia contato direto entre familiares, estudantes e profissionais dispersos pelo território nacional.
A malha se expandiu com apoio de empresas estatais do sistema Telebrás, que definiam distâncias mínimas entre aparelhos para garantir que nenhum cidadão precisasse caminhar demasiadamente até encontrar um telefone funcional.
Forma e função: o design oval de Chu Ming Silveira
O modelo que se tornaria ícone do mobiliário urbano foi assinado em 1971 pela arquiteta Chu Ming Silveira. A profissional buscou uma solução capaz de proteger o usuário do ruído da rua, resistir ao clima tropical e, ao mesmo tempo, ocupar pouco espaço na calçada. Daí nasceu o formato oval em fibra de vidro, comparado a uma concha acústica que abafa até 70% do som externo.
A leveza do material facilitava a limpeza e diminuía riscos de corrosão, enquanto a curvatura proporcionava privacidade parcial sem enclausurar totalmente a pessoa, ao contrário das cabines fechadas vistas em outros países. O resultado foi um objeto que uniu estética, ergonomia e durabilidade, ganhando versões menores — os “Orelhinhas” — para ambientes internos como hospitais e repartições.
Inovação tecnológica: fichas, cartões indutivos e novas gírias
O método de pagamento para chamadas acompanhou a evolução do aparelho. No início, fichas metálicas diferenciadas por ranhuras impediam fraudes e criaram o som característico da “ficha caindo”, expressão que entrou no vocabulário cotidiano. Carregar esse pequeno disco no bolso tornou-se hábito tão corriqueiro quanto levar chaves ou carteira.
A partir da década de 1990, o sistema passou a aceitar cartões indutivos de PVC, desenvolvidos por engenheiro brasileiro. Os créditos, apresentados em visor digital, eliminaram o peso das fichas e introduziram o colecionismo: ilustrações comemorativas transformaram o cartão em objeto de troca entre crianças e adultos.
O orelhão também servia como ponto receptor. Pessoas combinavam horários para receber ligações ali, usando o aparelho como endereço fixo. A urgência em concluir a conversa antes que acabassem os créditos imprimia ritmo à comunicação, prática muito diferente da experiência ilimitada dos aplicativos atuais.
Presença marcante no cinema e na cultura
Por tornar visível a tensão entre exposição e privacidade, o orelhão virou recurso frequente em produções artísticas. No filme recente “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, ambientado nos anos 1970, o telefone público ganhou protagonismo em cenas de suspense. O personagem interpretado por Wagner Moura depende da cabine de fibra de vidro para realizar contatos clandestinos, evidenciando o papel do equipamento como “personagem” que molda a narrativa.

Imagem: Internet
Fora da sétima arte, o aparelho apareceu em capas de discos, novelas e fotografias urbanas. “Te encontro no orelhão da praça” foi por décadas uma indicação geográfica tão precisa quanto o envio de localização por aplicativos hoje.
Queda de uso: do auge à obsolescência
A popularização do celular pré-pago no fim dos anos 1990 iniciou a retração do telefone público. Portabilidade, preços de aparelhos cada vez menores e planos que cobravam somente pelo uso real deslocaram o hábito de caminhar até a esquina para fazer ligações. Paralelamente, SMS e, depois, aplicativos de mensagem instantânea reduziram a necessidade de chamadas de voz.
Problemas de vandalismo intensificaram o abandono. Monofones arrancados, leitores entupidos e pichações comprometeram o serviço e ampliaram os custos de manutenção. As concessionárias mantinham unidades sobretudo para evitar multas regulatórias, mesmo sem retorno financeiro significativo.
Encerramento das concessões: o que muda em 2026
Com o término dos contratos de Serviços de Telefonia Fixa Comutada (STFC) em 2026, o regime de concessão cede lugar a modelos de autorização mais flexíveis. As empresas deixam de ser obrigadas a preservar metas de densidade de orelhões nas áreas urbanas, podendo remover instalações inativas e concentrar investimentos em redes 5G, fibra óptica e futuros padrões móveis.
A Agência Nacional de Telecomunicações estabeleceu fase de transição que prevê manutenção de aparelhos apenas onde ainda não há cobertura celular satisfatória. Em pontos remotos e pequenos povoados, os Telefones de Uso Público continuam disponíveis para garantir comunicação básica até que soluções móveis estejam plenamente implementadas.
Nas grandes cidades, a retirada das cabines dará lugar a calçadas mais livres, embora signifique perder um elemento de identidade visual criado por Chu Ming Silveira. Algumas unidades podem permanecer como peças de valor histórico em museus a céu aberto ou parques, mas sem função de telefonia.
Memória, colecionismo e ressignificação
Mesmo fora de operação, o orelhão mantém força simbólica. Colecionadores de cartões telefônicos — os telecartofilistas — enxergam nesses objetos registros de campanhas de saúde pública, eventos esportivos e paisagens turísticas. O fim definitivo da emissão de cartões aquece esse mercado de memorabilia.
Além do colecionismo, a própria cúpula de fibra de vidro tem sido reaproveitada em projetos de design de interiores. Algumas são transformadas em poltronas acústicas, luminárias ou cabines de leitura, preservando a forma oval característica em novos ambientes.
Para grande parcela da população, o aparelho carrega lembranças pessoais: a ligação para casa após viagem de ônibus, o pedido de namoro na adolescência ou o chamado de emergência em situações críticas. Cada evento reforça o sentimento de nostalgia em torno da peça que, por quase meio século, serviu de elo entre pessoas separadas por longas distâncias.
Legado de cinco décadas
O orelhão representou uma verdadeira ponte comunicacional em um país de dimensões continentais. Ele democratizou o acesso à voz em tempos em que possuir linha era privilégio, influenciou o design industrial brasileiro e foi testemunha silenciosa de transformações sociais profundas. Sua despedida em 2026 marca não apenas o avanço tecnológico, mas também a conclusão de um capítulo essencial da história urbana do Brasil.

Paulistano apaixonado por tecnologia e videojogos desde criança.
Transformei essa paixão em análises críticas e narrativas envolventes que exploram cada universo virtual.
No blog CELULAR NA MÃO, partilho críticas, guias e curiosidades, celebrando a comunidade gamer e tudo o que torna o mundo dos jogos e tecnologia tão fascinante.

