A edição de 2026 da feira de tecnologia realizada em Las Vegas foi marcada por lançamentos baseados em inteligência artificial, mas nem todas as novidades agradaram ao público. Um grupo formado por entidades de defesa do consumidor e da privacidade reuniu as inovações menos bem recebidas em um prêmio informal chamado Pior da Feira. A iniciativa, conduzida por Consumer Reports, Back Market e iFixit, destacou produtos considerados caros, difíceis de consertar, ambientalmente questionáveis ou repletos de riscos para a segurança digital.
Quem organiza o “Pior da Feira” e qual é o objetivo
O prêmio não é oficial e não possui ligação com a associação responsável pela feira. As organizações envolvidas—Consumer Reports, Back Market e iFixit—atuam de forma independente com foco em direitos do consumidor, reparabilidade de dispositivos e sustentabilidade. O propósito declarado é chamar atenção para o que os jurados classificam como “desastres tecnológicos”: equipamentos de alto custo e baixa durabilidade, cuja complexidade dificulta reparos, eleva custos de manutenção ou coloca em risco a privacidade individual.
Critérios utilizados na seleção
A escolha dos itens leva em conta quatro fatores principais:
Custo elevado: produtos vendidos por valores considerados desproporcionais em relação à utilidade adicionada.
Dificuldade de conserto: designs que impedem manutenção por usuários ou técnicos independentes, favorecendo descarte precoce.
Sustentabilidade limitada: uso de materiais descartáveis ou de ciclo de vida curto, que ampliam o volume de lixo eletrônico.
Riscos à privacidade e à segurança: coleta intensiva de dados, sensores constantes e integrações que expõem informações pessoais ou de terceiros.
Cenário geral da CES 2026
Apesar de a feira ter sido dominada por soluções de inteligência artificial voltadas para o cotidiano doméstico, o grupo avaliador observou que a integração de recursos inteligentes nem sempre resultou em ganho real para o consumidor. Em alguns casos, a conectividade serviu apenas para adicionar pontos de falha, elevar a complexidade e criar dependência de serviços online.
Produto mais criticado: Samsung Bespoke AI Family Hub
A geladeira conectada da Samsung recebeu a pontuação mais negativa do painel. O eletrodoméstico se diferencia por abrir e fechar a porta mediante comandos de voz, além de contar com câmeras internas e externas, publicidade integrada no visor e conexão permanente à internet.
Para os jurados, a proposta falha em justificar a adoção de tecnologia avançada em uma função tradicionalmente simples: preservar alimentos em temperatura adequada. O diretor-executivo da organização Right to Repair, Gordon-Byrne, apontou que a adição de motores, microfones e sensores sofisticados aumenta consideravelmente a probabilidade de defeitos e dificulta reparos fora da rede autorizada.
Outra preocupação foi a interferência de ruídos comuns de cozinhas, que teria comprometido as demonstrações de comando de voz durante a feira. Os avaliadores relataram atrasos na resposta do sistema e falhas na abertura automática da porta quando vários sons ambientes competiam pela atenção do microfone integrado.
Além disso, as câmeras posicionadas na porta e no interior do refrigerador foram consideradas um excesso. Integradas a serviços de reconhecimento de conteúdo, essas lentes captam imagens constantes do espaço doméstico, levantando dúvidas sobre quem tem acesso a esses registros e como os dados são armazenados.
O conjunto de fatores—complexidade técnica, possíveis falhas em ambientes ruidosos, riscos de privacidade e custo de reparo—levou a Bespoke AI Family Hub ao topo da lista de decepções.

Imagem: Divulgação
Campainha Ring da Amazon e a expansão da vigilância residencial
Outro destaque negativo foi o sistema de campainha com câmera Ring, da Amazon. A versão apresentada na CES 2026 incluiu novos recursos de inteligência artificial, como reconhecimento facial e integrações com aplicativos de terceiros. Representantes de direitos digitais argumentaram que essas funções ampliam significativamente a vigilância de áreas públicas e privadas.
Um dos pontos levantados é o impacto sobre indivíduos que não optaram pelo dispositivo. Câmeras instaladas em residências vizinhas capturam movimentos de pedestres, entregadores e visitantes, gerando um mapeamento indireto da rotina de quem vive ou circula na região. Isso cria um cenário em que, mesmo sem adquirir o equipamento, a pessoa pode ser monitorada de forma constante.
O dispositivo também foi criticado pelo modelo de negócios baseado em serviços na nuvem. A necessidade de assinaturas para armazenamento de vídeo e funcionalidades avançadas faz com que o custo total de propriedade ultrapasse o valor de venda inicial, reforçando a percepção de que o sistema onera o consumidor em longo prazo.
Lollipop Star: entretenimento descartável e desperdício de recursos
A terceira posição da lista ficou com o Lollipop Star, um pirulito eletrônico que reproduz músicas via condução óssea enquanto é consumido. Embora o equipamento pareça inofensivo, os avaliadores realçaram seu Impacto Ambiental negativo. O motivo principal está no uso de baterias descartáveis com duração aproximada de uma hora, associadas a componentes eletrônicos de uso único.
Depois de pouco tempo de funcionamento, o produto perde a utilidade e deve ser descartado, gerando resíduos plásticos e circuitos não reciclados. Na avaliação das entidades, o exemplo simboliza como a aplicação de tecnologia sem clara necessidade pode agravar a crise de lixo eletrônico sem oferecer contrapartida prática ou experiência duradoura ao usuário.
Consequências da classificação negativa
Ao eleger esses dispositivos, os organizadores pretendem influenciar fabricantes a reconsiderar escolhas de design que dificultem a manutenção e ampliem custos ambientais. A exposição pública coloca pressão sobre marcas conhecidas e, segundo as entidades, estimula o debate sobre modelos de negócios baseados em venda casada de hardware e assinaturas, além de práticas de coleta extensiva de dados.
Independência em relação à feira oficial
Os promotores do Pior da Feira reiteraram que não mantêm vínculo com a Consumer Technology Association, responsável pela organização do evento em Las Vegas. Dessa forma, o prêmio funciona como iniciativa paralela, mantendo olhar crítico sobre tendências apresentadas e servindo de contraponto à narrativa oficial de inovação constante.
Reparabilidade e direito de conserto em pauta
Durante a divulgação dos resultados, foi enfatizado que produtos que dificultam o conserto contribuem para descarte prematuro e estimulam a aquisição de novos equipamentos em intervalos curtos. A questão se torna central em aparelhos como a geladeira conectada, cuja soma de sensores, motores e conectividade tende a exigir assistência especializada. Sem peças padronizadas ou acesso a manuais, os custos de reparação geralmente superam o valor de reposição, incentivo direto à obsolescência.
Privacidade como diferencial de compra
No caso da campainha inteligente, a discussão ultrapassou a barreira da propriedade individual e passou a envolver o direito coletivo à privacidade. Conforme observaram os avaliadores, a expansão de sistemas de reconhecimento facial pode criar bancos de dados que incluem pessoas que nunca consentiram em ser registradas. Essa coleta passiva altera a dinâmica social de bairros inteiros, onde cada dispositivo se torna um ponto adicional de captura de informações.
Sustentabilidade em produtos de uso único
O exemplo do Lollipop Star evidencia uma tendência de mercado: a implementação de recursos técnicos avançados em itens cuja vida útil é intrinsecamente curta. Embora a experiência sonora ofereça diferencial de entretenimento, o benefício termina rapidamente. O resíduo deixado—plástico, circuitos e baterias—permanece por muito mais tempo, representando custo ambiental desproporcional à diversão proporcionada.
Mensagem final dos avaliadores
Ao declarar a Samsung Bespoke AI Family Hub, a campainha Ring da Amazon e o Lollipop Star como os piores produtos da CES 2026, os organizadores do prêmio reforçaram a importância de se olhar além do marketing envolvente. Para o grupo, funcionalidades adicionais devem ser acompanhadas de segurança, reparabilidade e responsabilidade ambiental, princípios que, segundo suas análises, ficaram em segundo plano nos dispositivos listados.

Paulistano apaixonado por tecnologia e videojogos desde criança.
Transformei essa paixão em análises críticas e narrativas envolventes que exploram cada universo virtual.
No blog CELULAR NA MÃO, partilho críticas, guias e curiosidades, celebrando a comunidade gamer e tudo o que torna o mundo dos jogos e tecnologia tão fascinante.

