Após liquidações de Will Bank e Banco Master, saiba como avaliar se um banco é realmente seguro

Os processos de liquidação do Will Bank, ocorridos neste mês, e do Banco Master, efetivados no final do ano passado, evidenciaram um problema essencial para quem guarda ou investe dinheiro: a confiabilidade da instituição escolhida. Se duas empresas consideradas alternativas puderam ser encerradas de forma repentina, qualquer depositante pode se questionar sobre as barreiras que o separam de um bloqueio temporário – ou até definitivo – de seus recursos. Entender onde o dinheiro está aplicado, que tipo de serviço financeiro está sendo contratado e qual cobertura de proteção existe torna-se, portanto, um procedimento indispensável.

Quem é quem no sistema financeiro

Na prática cotidiana, termos como “banco”, “instituição financeira” e “carteira digital” tendem a ser usados como se fossem equivalentes. Entretanto, a lei e as normas do Banco Central estabelecem papéis distintos. Conhecer essas diferenças ajuda o consumidor a medir o grau de segurança disponível em cada serviço.

Instituição financeira é o conceito mais amplo. Nesse grupo cabem empresas capazes de intermediar ou facilitar operações de crédito, investimentos ou pagamentos. A categoria engloba desde bancos consolidados até cooperativas, corretoras de valores e plataformas de pagamento.

Banco é a parcela das instituições financeiras que recebeu autorização formal do Banco Central para oferecer o conjunto clássico de serviços. Entre as atribuições aparecem: receber depósitos, realizar transferências, conceder empréstimos, estruturar financiamentos, efetuar câmbio e disponibilizar produtos de investimento. Organizações como Itaú, Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Santander, Banco Inter, BTG, Banco Votorantim e Safra fazem parte dessa lista – todos reconhecidos na relação oficial, atualizada pelo regulador em dezembro de 2025.

Instituição de pagamento também depende de permissão do Banco Central, porém não detém status de banco. Seu escopo limita-se a contas de pagamento, isto é, à movimentação de saldos usados exclusivamente para compras, boletos ou transferências instantâneas. Exemplos difundidos incluem Ame Digital, PagBank, 99Pay, Mercado Pago, Recarga Pay, PayPal e Mercado Bitcoin. Apesar da semelhança visual com aplicativos bancários, esses provedores não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Por fim, há a conta de pagamento ou carteira de pagamento, mantida dentro de uma instituição de pagamento. O dinheiro depositado nesse ambiente deve permanecer segregado do patrimônio da companhia, o que diminui o risco de confisco direto em caso de falência. Mesmo assim, não existe garantia oficial para o ressarcimento automático do cliente se ocorrer liquidação.

O que o FGC realmente protege

Uma das primeiras providências ao escolher onde deixar o dinheiro é confirmar a existência de blindagem do Fundo Garantidor de Crédito. Esse mecanismo assegura o ressarcimento de valores aplicados em determinadas modalidades, até o limite definido pelo regulamento, sempre que um banco – não o seu produto inteiro – entra em regime especial. É importante notar que nem todo ativo distribuído por um banco se enquadra nessa salvaguarda.

Para o pequeno poupador, a implicação é direta: guardar recursos parados na conta-corrente, sem direcioná-los para um investimento protegido, mantém o saldo fora do guarda-chuva do FGC. Títulos que trazem, de forma escrita e visual, a identificação “protegido pelo FGC” são os que oferecem cobertura. O investidor deve selecionar uma aplicação alinhada ao próprio perfil de risco e confirmar essa informação antes de concluir a operação.

Se o catálogo de investimentos da instituição não contém alternativas cobertas, este é um alerta. A ausência de opções amparadas pelo fundo sinaliza que, em eventual crise, o titular dependerá exclusivamente da solidez do emissor, o que pode representar vulnerabilidade alta.

Rendimentos fora dos padrões: indício de problema iminente

Outro comportamento recorrente observado em empresas que caminham para a intervenção do Banco Central é a divulgação de rentabilidades muito superiores às médias praticadas no mercado. Ofertas de aplicações pagando 150 % ou 200 % do CDI, ou ainda juros anuais de 30 % a 40 %, chamam atenção justamente por destoarem dos parâmetros usuais.

Em situações como essa, vale desconfiar. A promessa de retorno exagerado pode indicar um esforço emergencial de captação para cobrir dívidas que a companhia já não consegue honrar. Quando a liquidação definitiva é decretada, o correntista perde o acesso imediato aos recursos e precisa entrar em um processo burocrático perante o Banco Central para tentar reaver o dinheiro. Mesmo que o procedimento seja concluído, não há garantia de recuperação integral do montante, especialmente nos casos em que não existe a cobertura do FGC.

Histórico público de atendimento e reputação

Além dos números e das certificações regulatórias, a trajetória da instituição oferece pistas sobre sua capacidade de gestão de crises. Grandes bancos, hoje consolidados, começaram em tamanho reduzido. Contudo, esse fator isolado não valida qualquer entidade nascente. Avaliar a reputação em plataformas de reclamações, como o Reclame Aqui, ajuda a verificar se problemas relatados por usuários são resolvidos com agilidade.

Outro ponto relevante é identificar a empresa controladora. Se o grupo econômico já apresenta sinais de fragilidade – queda de receitas, prejuízos sucessivos ou dívidas questionáveis –, o risco tende a refletir no braço financeiro. Para organizações recém-criadas que ainda não dispõem de histórico visível, adiar o depósito de somas significativas pode ser prudente, por mais atrativa que seja a taxa anunciada.

Leitura atenta de contratos e tarifas

Analisar as cláusulas contratuais continua sendo etapa negligenciada por muitos consumidores. No documento constam parâmetros de juros cobrados em situações de atraso, custos de manutenção e punições. Taxas consideradas abusivas pelo Banco Central têm potencial de transformar um débito pontual em um passivo praticamente impagável. Há casos em que um débito original de R$ 2 mil alcança cifras dez vezes maiores em poucas semanas.

Como imprevistos acontecem – perda de emprego, fraudes ou incidentes de segurança –, conhecer antecipadamente os encargos evita surpresas. Caso a instituição imponha indexadores muito distantes da média, isso questiona a confiabilidade do relacionamento a longo prazo.

Passo a passo para verificar a segurança de um banco

A soma dos fatores apresentados resulta em um roteiro prático, fundamentado apenas nas informações disponíveis:

1. Confirmar se a empresa é banco ou instituição de pagamento
O Banco Central mantém seção dedicada com a lista de bancos comerciais autorizados. A simples presença do termo “banco” no nome fantasia não garante a classificação.

2. Identificar produtos cobertos pelo FGC
Ao abrir o aplicativo ou visitar o portal, busque a indicação textual ou o selo visual de proteção. Se não aparecer, considere transferir parte do capital para opção contemplada pelo fundo.

3. Desconfiar de rentabilidades muito acima do mercado
Remuneração fora do padrão pode sinalizar urgência na captação. Antes de investir, verifique se a oferta corresponde à realidade do segmento.

4. Checar histórico de atendimento ao cliente
Use sites de avaliação pública para examinar a taxa de solução de conflitos e a postura da companhia diante de reclamações recorrentes.

5. Ler contratos antes de assumir obrigações
Condições de juros, multas e tarifas devem ser comparadas com outras instituições. Percentuais exagerados aumentam o risco de endividamento em caso de atraso.

O impacto das recentes liquidações

A interrupção das atividades do Will Bank e do Banco Master demonstra que, embora a supervisão do Banco Central atue para proteger o sistema, nenhum participante está isento de falhas. O episódio reforça a necessidade de vigilância constante por parte dos usuários, sobretudo quando optam por instituições que oferecem remuneração elevada ou surgem com proposta de disrupção sem histórico de estabilidade.

Para quem foi afetado, o caminho envolve o cadastro no Banco Central e a espera pelos trâmites legais destinados a avaliar bens, créditos e dívidas da massa falida. O processo tende a ser moroso e, dependendo da existência de garantias, pode resultar em devolução apenas parcial.

Disciplinar hábitos financeiros para reduzir riscos

Guardar dinheiro em múltiplas instituições reconhecidas, diversificar produtos amparados pelo FGC e evitar concentração excessiva em carteiras de pagamento são práticas que derivam diretamente das lições recentes. Embora não impeçam a falência de uma empresa, tais atitudes limitam o prejuízo em cenários adversos.

Adotar esses cuidados, baseado nos fatos concretos evidenciados pelas liquidações de Will Bank e Banco Master, aproxima o consumidor de uma gestão financeira mais resistente a choques, respaldada por legislações vigentes e por garantias já criadas para esse fim.

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