Um consórcio que reúne diversas estações de rádio do Reino Unido apresentou uma queixa segundo a qual grandes empresas de tecnologia, entre elas a Apple, estariam recolhendo informações sobre a audiência sem autorização explícita. O grupo, identificado como Radiocentre, sustenta que a captura ocorre por meio dos assistentes de voz embutidos em alto-falantes inteligentes, com destaque para o HomePod, vendido pela companhia norte-americana. De acordo com a denúncia, dados como perfil demográfico dos ouvintes, comandos de voz emitidos durante a transmissão e número de trocas de estação ficariam armazenados nas bases das plataformas, permitindo que essas empresas projetem serviços próprios e segmentem publicidade de maneira mais assertiva.
Entenda a acusação
A principal alegação do Radiocentre é que as big techs, por atuarem como intermediárias entre o público e as emissoras, têm acesso privilegiado a informações que antes permaneciam exclusivamente com as rádios. O temor declarado é que esse panorama favoreça o surgimento de produtos concorrentes concebidos com base na análise detalhada do comportamento do ouvinte. Na prática, o consórcio afirma que a Apple, ao compreender quem escuta um determinado gênero, em que horário e por quanto tempo, passa a ter condições de oferecer experiências semelhantes—ou mesmo superiores—sem depender do conteúdo original das estações tradicionais.
Quem é o Radiocentre
O Radiocentre reúne rádios comerciais espalhadas por todo o território britânico. A entidade atua como representante institucional do setor, dialogando com reguladores, legisladores e, quando necessário, acionando autoridades para defender interesses coletivos. Nesta controvérsia específica, o diretor-executivo Matt Payton tem liderado as iniciativas, argumentando que o avanço das plataformas gigantes coloca em risco a competitividade e a autonomia das emissoras locais. Embora o consórcio admita não ter identificado impacto financeiro substancial até o momento, reforça que acompanha o movimento das empresas de perto e considera o tema insuficientemente discutido no cenário regulatório atual.
Quais dados estariam sendo captados
Segundo a queixa, três categorias de informação são coletadas sem transparência adequada. A primeira envolve dados demográficos, isto é, características gerais do público, como faixa etária ou localização aproximada. A segunda refere-se aos comandos de voz proferidos durante as transmissões, capazes de revelar preferências individuais com riqueza de detalhes. O terceiro conjunto trata da frequência com que o usuário alterna de estação, métrica que indica nível de engajamento e satisfação com a programação. Para o Radiocentre, o acesso a esse tripé de informações confere às plataformas visão abrangente sobre hábitos de consumo que vão muito além da tradicional medição de audiência.
Como o HomePod coleta as informações
O HomePod, tal como outros alto-falantes inteligentes, depende de um assistente de voz para executar pedidos do usuário. Cada vez que alguém solicita a reprodução de uma rádio, o dispositivo registra o comando, identifica a origem do fluxo de áudio e direciona a transmissão. Durante todo o processo, metadados—informações sobre como, quando e com que frequência a interação ocorreu—são processados nos servidores da Apple. Na avaliação das rádios britânicas, esse trânsito de dados, mesmo estando associado ao funcionamento normal do produto, oferece à empresa uma base estatística capaz de alimentar algoritmos de recomendação e iniciativas comerciais próprias.
Por que a coleta preocupa as emissoras
Para as estações afiliadas ao Radiocentre, o principal receio é a possibilidade de as big techs criarem estações substitutas que competem diretamente pela atenção do ouvinte e pelo faturamento publicitário. O histórico recente reforça essa apreensão. Conforme recordado pelo jornal The Telegraph, tanto Apple quanto Amazon já disponibilizam em seus catálogos de streaming estações personalizadas, construídas sobre os hábitos de reprodução dos assinantes. O consórcio teme que, munidas de dados granulares, as empresas ampliem essa estratégia, limitando a visibilidade das emissoras tradicionais em assistentes de voz e dirigindo o ouvinte para conteúdos proprietários.
Medidas tomadas perante autoridades
Como parte da ofensiva, o Radiocentre encaminhou pedido formal ao regulador britânico Ofcom. No documento, argumenta que falta proteção específica para o setor de rádio diante do poder de mercado das gigantes da tecnologia. O grupo sustenta que, além da suposta apropriação de dados, existe a tendência de priorização de serviços próprios na interface dos alto-falantes inteligentes. Essa priorização, ainda de acordo com o consórcio, pode reduzir a exposição das rádios independentes, comprometendo a diversidade de conteúdo disponível ao público.

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O que diz a legislação britânica
O Reino Unido conta com a chamada Lei da Mídia (Media Act), que impõe dois dispositivos centrais relevantes para o caso. Primeiro, garante que as rádios nacionais sejam facilmente encontradas em smart speakers, evitando que algoritmos ocultem ou dificultem o acesso aos canais tradicionais. Segundo, proíbe empresas de tecnologia de interromper transmissões de rádio para inserir anúncios. O Radiocentre entende que, embora a lei ofereça salvaguardas importantes, o avanço das plataformas e as práticas de coleta de dados exigem vigilância constante para que o espírito da norma seja efetivamente mantido.
Resposta das empresas envolvidas
Procurada pelo The Telegraph para comentar as alegações, a Amazon preferiu não se manifestar. Apple e Google, igualmente contatadas pelo jornal, não haviam respondido até o momento da publicação citada pela imprensa britânica. A ausência de posicionamento oficial mantém o foco nas declarações do Radiocentre e no acompanhamento que o órgão regulador poderá realizar a partir da queixa protocolada.
Relevância comercial do HomePod
O HomePod e sua versão mini compõem a linha de alto-falantes inteligentes da Apple, vendidos em diferentes cores e com preço inicial divulgado de 99 dólares. Além de reproduzir áudio em alta qualidade, o dispositivo integra-se ao ecossistema da marca, oferecendo controle de voz para múltiplas funções domésticas. Justamente por estar instalado em ambientes residenciais e operado por comandos naturais, o produto se torna ponto de coleta privilegiado de informações sobre preferências de entretenimento. É nesse contexto que o Radiocentre insere sua preocupação, alegando que o alcance do aparelho fornece à Apple dados estratégicos para moldar produtos de áudio que concorrem com as rádios convencionais.
Embora ainda não exista comprovação de prejuízos diretos às emissores, a queixa do Radiocentre realça a tensão entre plataformas digitais e produtores tradicionais de conteúdo. O avanço da tecnologia de voz amplia a conveniência para o usuário, mas coloca em disputa quem controla a relação com o ouvinte e quem se beneficia economicamente das informações geradas. No centro desse debate, o HomePod simboliza o potencial de convergência entre hardware, software e serviços que, para as estações britânicas, pode transformar dados de uso cotidiano em vantagem competitiva para as gigantes da tecnologia.
Até que ofícios adicionais sejam publicados ou que as empresas se pronunciem, o andamento do processo junto ao Ofcom e eventuais revisões na aplicação da Lei da Mídia deverão indicar se as emissoras contarão com novos mecanismos de proteção ou se precisarão adaptar-se às dinâmicas impostas pelos assistentes de voz presentes nos lares do Reino Unido.

Paulistano apaixonado por tecnologia e videojogos desde criança.
Transformei essa paixão em análises críticas e narrativas envolventes que exploram cada universo virtual.
No blog CELULAR NA MÃO, partilho críticas, guias e curiosidades, celebrando a comunidade gamer e tudo o que torna o mundo dos jogos e tecnologia tão fascinante.

