Empresas reposicionam wearables como base para inteligência artificial em 2025

O ano de 2025 destaca-se como um ponto de inflexão para o mercado de tecnologia vestível. Fabricantes que por anos promoveram relógios e pulseiras focados em monitorar passos, sono e batimentos cardíacos passaram a enxergar esses objetos como a plataforma ideal para inteligência artificial. A decisão envolve não apenas acrescentar novos componentes ou sensores, mas redesenhar todo o propósito dos dispositivos corporais: eles deixam de ser periféricos de saúde para se transformar em assistentes digitais que acompanham o usuário sem interrupção.

Do monitoramento de saúde ao ecossistema de IA pessoal

Até recentemente, wearables se apresentavam como extensões de smartphones. A principal função era registrar exercícios, emitir alertas de mensagens e armazenar índices de bem-estar. A partir de 2025, segundo empresas do setor, a visão evoluiu. O dispositivo no corpo não é mais um acessório do telefone, e sim o ambiente permanente em que algoritmos de IA coletam contexto em tempo real. Esse contexto inclui sons do ambiente, imagens captadas por câmeras discretas e dados de localização, permitindo respostas instantâneas a perguntas ou comandos do usuário.

A mudança de paradigma ficou evidente em feiras de tecnologia, onde executivos ressaltaram que a IA depende da proximidade constante com a pessoa para entregar valor. Como consequência, óculos, relógios, anéis, colares e broches ganharam destaque nos estandes, sempre acompanhados da promessa de interação contínua e sem necessidade de retirar o aparelho do bolso.

Óculos passam a ser rotulados como “com IA”

Nenhum dispositivo recebeu tanta atenção quanto os óculos. Durante eventos de 2025, companhias enfatizaram o abandono do antigo rótulo “óculos inteligentes”. O termo preferido agora é “óculos com IA”. Para executivos da Meta, esse formato oferece três vantagens simultâneas: áudio discreto, câmeras que enxergam o mesmo cenário do usuário e presença constante diante dos olhos. A união desses elementos habilita conversas com o assistente em qualquer momento do dia, sem expor telas ou levantar o pulso.

Na prática, o usuário pode fazer perguntas sobre aquilo que está vendo, solicitar identificação de objetos, registrar fotos ou pedir instruções de navegação sem usar as mãos. O Google segue conceito semelhante. A empresa diferencia os novos óculos de IA de headsets XR mais robustos, apontando como prioridade o desenho leve, estiloso e direcionado a consultas ao assistente Gemini. O foco não recai sobre realidade aumentada complexa, mas sobre respostas contextuais imediatas.

Colares, pingentes e broches com escuta contínua

Além dos óculos, acessórios até então considerados meramente decorativos ganham circuitos e microfones. Colares, pingentes e broches introduzidos em 2025 oferecem escuta permanente, recurso que sustenta funções como resumir reuniões, registrar conversas longas e organizar informações em listas de tarefas. O dispositivo captura áudio ambiente, filtra o conteúdo relevante e envia o resumo ao usuário.

Entre os objetivos declarados pelos fabricantes está a criação de um companheiro digital atento. Em vez de depender de comandos explícitos, o acessório interpreta o contexto do dia a dia e propõe lembretes ou instruções. Ao término de um encontro de trabalho, por exemplo, o broche pode apresentar uma lista automática de ações comentadas. Durante uma aula, o pingente registra pontos-chave e, posteriormente, gera um texto conciso que pode ser revisado em segundos.

Anéis convertem memórias faladas em tarefas

Os anéis inteligentes integram a mesma lógica. Ao permanecerem nos dedos o tempo todo, oferecem um canal rápido para memorandos de voz. O usuário pressiona o aro, dita um lembrete e prossegue com a atividade. Minutos depois, a IA transforma a gravação em um compromisso, define prazos, categorizações e, se necessário, acrescenta a entrada em um calendário. A função reforça a tendência de captura instantânea de ideias sem o atrito de abrir aplicativos ou digitar em telas.

Fabricantes também destacam a vantagem de um produto discreto, alinhado a códigos visuais comuns. Um anel não atrai a atenção de estrangeiros na rua nem exige espaço extra na bolsa. Essa invisibilidade física coincide com a meta de tornar a IA onipresente, porém invisível, atuando como extensão do pensamento do usuário.

Smartwatches e fones reforçam recursos avançados

Os wearables tradicionais não ficaram de fora do reposicionamento. Em 2025, Samsung e Google levaram o Gemini para relógios com Wear OS. Isso significa que comandos de voz, respostas personalizadas e análises contextuais agora ocorrem diretamente no pulso, dispensando o telefone em tarefas básicas. A Fitbit, por sua vez, testa um treinador de IA, capaz de interpretar dados de atividade física e sugerir ajustes imediatos em rotinas de treino.

No ecossistema Apple, surgiraram novidades em duas frentes. Os AirPods Pro 3 receberam tradução de idiomas alimentada por Apple Intelligence, enquanto o Apple Watch ganhou o recurso Workout Buddy, uma função que orienta exercícios em tempo real. Esses recursos ampliam o escopo do relógio e dos fones, que deixam de ser meros reprodutores de mídia ou contadores de passos.

Empresas de nicho reforçam a mesma trajetória. A Oura introduziu o chatbot Oura Advisor, dedicado a interpretar sinais corporais coletados pelo anel e devolver conselhos de recuperação ou sono. A Garmin passou a oferecer insights de IA como serviço premium, mostrando que até marcas focadas em nichos esportivos aderiram à tendência. Paralelamente, aplicativos de fitness atualizam seus códigos para ingerir as medições de sensores e, com IA embarcada, gerar planos personalizados sem intervenção manual.

Objetivo comum: assistente presente 24 horas por dia

Ao justificar o plano de integrar IA em cada centímetro de um wearable, executivos como Sandeep Waraich, líder de produto para o portfólio Pixel do Google, enfatizam um ponto central: o dispositivo vestível é o único gadget garantido no corpo. Smartphones podem ficar na mesa e laptops permanecem em mochilas, mas óculos, relógios ou anéis acompanham a pessoa durante deslocamentos, reuniões e atividades físicas.

A partir dessa constatação, as empresas concluem que o máximo desempenho da IA depende dessa proximidade ininterrupta. A inteligência artificial só pode fornecer respostas realmente contextuais se observar o ambiente em tempo real, ouvir alterações de tom de voz e detectar variações na rotina. Quanto mais contínuo o fluxo de dados, maior a precisão das recomendações. Ao mesmo tempo, a presença constante do hardware permite que o assistente intervenha preventivamente — por exemplo, lembrando de hidratação ou sugerindo pausa para descanso — em momentos que um aplicativo tradicional não detectaria.

Consequências para usuários e para o mercado

Para o usuário final, a promessa é de conveniência ampliada. Perguntas rápidas, traduções, criação de listas e organização de reuniões podem ocorrer sem digitar ou desbloquear telas. A coleta de dados de saúde continua relevante, mas torna-se um componente em meio a um conjunto maior de observações sobre comportamento e preferências. O aparelho passa a compreender não apenas quantos passos foram dados, mas também por que eles foram dados e qual ação deve ser sugerida em seguida.

No mercado, a movimentação redefine estratégias de hardware e software. Marcas que dominavam sensores biométricos agora disputam espaço com gigantes do segmento de nuvem e algoritmos. Em vez de vender apenas um medidor de batimentos, as companhias oferecem pacotes de assinatura de IA, com análises, relatórios detalhados e treinamento personalizado. Esse modelo potencializa fluxos de receita recorrente e estimula atualizações de firmware mais frequentes, pois melhorias de algoritmo podem chegar sem necessidade de novo hardware.

Interação sem telas como novo padrão

Outra consequência direta do avanço é o abandono gradual da interface centrada na tela. Vários produtos anunciados em 2025 priorizam áudio, gestos ou comandos visuais captados por câmeras. A ideia é diminuir o tempo do usuário diante de displays, liberando as mãos e os olhos para tarefas reais. Em ambientes profissionais, a funcionalidade de resumir reuniões reduz o esforço de tomar notas; em viagens, a tradução direta no fone de ouvido simplifica interações em idiomas desconhecidos.

Esse movimento reforça a tese de que o futuro da computação pessoal não reside em dispositivos cada vez mais potentes, mas em sistemas discretos e contextuais, capazes de se antecipar às necessidades. Óculos que respondem ao que se vê, broches que registram conversas e anéis que transformam falas em lembretes apontam todos para uma mesma direção: uma camada de inteligência que permeia a rotina sem pedir atenção explícita.

Perspectivas imediatas observadas em 2025

Embora a adoção em massa ainda dependa de preço, design e autonomia de bateria, as demonstrações de 2025 indicam que o pressuposto de utilidade já foi comprovado pelas fabricantes. Cada categoria de wearable recebeu, pelo menos, uma atualização centrada em IA. O resultado é um ecossistema no qual a fronteira entre hardware, software e análise de dados se torna cada vez menos visível.

Tecnologias anunciadas por Meta, Google, Samsung, Apple, Oura e Garmin revelam consenso de que o próximo salto competitivo não virá exclusivamente de sensores mais precisos, e sim do uso inteligente das informações já coletadas. Dessa forma, 2025 figura como o ano em que as empresas abandonaram a visão limitada de acompanhamento de saúde para abraçar o conceito de assistente pessoal permanente acoplado ao corpo.

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