Há anos circulam nas redes sociais receitas rápidas que asseguram recuperar aparelhos danificados, turbinar componentes internos ou contornar bloqueios de segurança em poucos minutos. Esses métodos ganham força por vídeos curtos, postagens em fóruns ou mensagens encaminhadas, envolvendo itens comuns de casa, códigos numéricos aparentemente secretos e aplicativos que prometem feitos impossíveis. Apesar da popularidade, nenhum desses atalhos resiste a uma análise técnica. Em muitos casos, além de ineficazes, eles expõem o usuário a perda de dados, agravamento de defeitos físicos e até risco de malware. A seguir, veja como funcionam cinco truques virais e por que eles não oferecem solução real.
Como surgem e se espalham os truques virais
O ciclo de um “hack” de celular costuma começar com um vídeo curto que demonstra o suposto resultado extraordinário. O formato visual imediato cria a impressão de prova concreta, mesmo que o efeito exibido seja resultado de edição ou condições muito específicas. Em seguida, o algoritmo das plataformas prioriza engajamento, fazendo com que o conteúdo chegue a milhares de pessoas em pouco tempo. A facilidade de replicação leva usuários a tentar o método sem avaliar as implicações técnicas. Quando esse movimento atinge blogs e grupos de mensagens, o truque ganha aparência de dica consolidada, embora não exista comprovação prática.
Nesse contexto, produtos domésticos, comandos numéricos ou aplicativos gratuitos tornam‐se atrativos porque oferecem a promessa de resolução rápida, sem custo e sem necessidade de assistência especializada. Contudo, componentes eletrônicos, sistemas operacionais e métodos de segurança seguem princípios que não podem ser contornados por soluções improvisadas. Abaixo, confira cada promessa popular, o motivo pelo qual falha e qual é a ação correta recomendada pelos fabricantes.
Pasta de dente para disfarçar ou reparar trincas na tela
A teoria por trás do uso do creme dental é que partículas levemente abrasivas preencheriam fissuras no vidro, devolvendo o aspecto original. Entretanto, a tela de um smartphone combina camadas de vidro temperado, digitizador e, em muitos modelos, uma película oleofóbica aplicada de fábrica. A pasta possui abrasivos inadequados para vidro temperado e absolutamente nenhuma propriedade adesiva. Ao ser friccionada sobre a superfície, pode remover parte da camada que repele impressões digitais, deixando manchas permanentes.
Além disso, fissuras representam quebra estrutural. Elas não podem ser “seladas” por agentes externos de uso cotidiano. O risco de crescimento da rachadura persiste, e a infiltração de umidade pelos microespaços aumenta. O procedimento tecnicamente indicado é a substituição total do conjunto frontal ou, quando possível, apenas do vidro, em assistência certificada que garanta a integridade da vedação contra poeira e água.
Imersão em arroz para drenar umidade interna
Quando um aparelho cai na água, a recomendação popular mais difundida é mergulhá‐lo em um pote de arroz cru. O raciocínio se apoia na capacidade do grão absorver água do ambiente, algo válido para umidade no ar, mas irrelevante para gotas presas em microfendas internas. Testes independentes demonstraram que a secagem obtida por exposição em superfície ventilada produz resultado igual ou superior ao método com arroz.
Mais grave é o fato de que fragmentos do alimento podem entrar por frestas de alto‐falante, porta de carregamento ou microfones, causando corrosão ou obstrução. A conduta correta após o contato com líquido é desligar imediatamente o dispositivo, remover cartão SIM e acessórios, evitar conexão a energia e aguardar em ambiente arejado. Caso a vedação do aparelho não seja certificada para condições subaquáticas, procurar assistência em sequência reduz o risco de oxidação interna.
‘Baixar’ memória RAM como se fosse um aplicativo
Outra promessa recorrente sugere instalar um arquivo que adicionaria gigabytes de RAM ao celular, tornando‐o mais rápido para jogos ou multitarefas. Memória RAM é um componente físico soldado à placa. Sua capacidade está limitada ao módulo existente; não é possível ampliá‐la por software. Qualquer página que ofereça instalação de RAM virtual veicula, na verdade, um aplicativo sem função concreta ou, pior, malware capaz de coletar dados.
Quando o desempenho se deteriora, medidas efetivas incluem liberar espaço de armazenamento, remover aplicativos que executam processos intensos em segundo plano ou restaurar configurações de fábrica, sempre com cópia de segurança prévia. Se o limite de hardware estiver superado pelas exigências atuais, a única solução definitiva é adquirir modelo com especificações superiores.

Imagem: Internet
Código mestre universal para desbloquear qualquer celular
Sequências numéricas precedidas ou seguidas de símbolos como “*#” circulam prometendo destravar dispositivos bloqueados. Na realidade, essas combinações apenas abrem menus de diagnóstico, exibem informações sobre sinal, bateria ou número IMEI e não interferem na criptografia que protege o sistema operacional. O bloqueio de tela e a criptografia de armazenamento trabalham em conjunto usando chaves geradas individualmente. Quebrar essa barreira exigiria acesso físico avançado a componentes ou credenciais legítimas.
Portanto, se o proprietário esqueceu senha ou padrão, deve recorrer aos procedimentos oficiais de recuperação, que variam entre serviços de localização, redefinição de senha por conta vinculada ou restauração completa que apaga os dados. Métodos não autorizados podem, além de ineficazes, infringir termos de uso e legislação de proteção de privacidade.
Aplicativos que prometem resfriar o dispositivo
Os chamados “cooling apps” afirmam reduzir a temperatura interna fechando processos, alterando frequência de CPU e GPU ou gerenciando energia de forma inteligente. O máximo que esses softwares podem executar é interromper aplicativos em segundo plano, algo que o próprio sistema já realiza automaticamente quando identifica sobrecarga térmica. A dissipação de calor é fenômeno físico dependente de design interno, materiais e espaço para circulação de ar, inexistente em aparelhos completamente selados.
A crença no resfriamento instantâneo pode levar o usuário a ignorar sinais de superaquecimento causados por defeito de bateria, carregador inadequado ou uso contínuo em ambiente muito quente. A orientação dos fabricantes é interromper o uso, retirar o celular de fontes externas de calor e, se o aquecimento anormal persistir, buscar avaliação técnica. Expor o aparelho a variações bruscas de temperatura, como colocá-lo na geladeira, também deve ser evitado, pois gera condensação interna.
Práticas seguras em situações de emergência com o celular
Ao invés de recorrer a soluções caseiras improvisadas, usuários podem adotar etapas comprovadamente úteis. Para danos físicos, assistência autorizada garante peças originais e manutenção dentro dos padrões de fábrica. Em caso de contato com líquidos, desligar o aparelho imediatamente, secar externamente com pano macio, mantê-lo em posição vertical e aguardar a secagem natural em local ventilado são procedimentos que reduzem a chance de curto‐circuito. Se a exposição foi prolongada, a abertura e limpeza interna por profissional qualificado é recomendada.
Para lentidão ou travamentos, limpar cache, desinstalar aplicativos pouco utilizados e manter o sistema atualizado oferecem melhorias reais. Alterações radicais via downloads de procedência duvidosa, códigos desconhecidos ou promessas de expansão de hardware inexistente tendem a resultar em perda de garantia, vazamento de dados ou comprometimento de desempenho. Em resumo, a compreensão dos limites físicos e lógicos do aparelho é a melhor defesa contra mitos que continuam a viralizar nas redes.

Paulistano apaixonado por tecnologia e videojogos desde criança.
Transformei essa paixão em análises críticas e narrativas envolventes que exploram cada universo virtual.
No blog CELULAR NA MÃO, partilho críticas, guias e curiosidades, celebrando a comunidade gamer e tudo o que torna o mundo dos jogos e tecnologia tão fascinante.

